Penso que: Não aguento mais. Mas às tantas só penso, mergulhada num turbilhão de ideias: fugir daqui, fugir daqui para bem longe contigo, para um lugar seguro. Onde poderíamos ser felizes como somos (nunca fui tão feliz, obrigada mais uma vez por existires, por teres aparecido na minha vida) mas longe daqui, da civilização stressante que nos consome em carne viva, do ruído ensurdecedor que não quero ouvir e insiste em furar-me os tímpanos, do ar irrespirável que nos mata em cada suspiro, do mau-humor matinal que contagia os seres errantes que se deixam guiar por esta selva de betão. E depois olho à minha volta, "Menina, dê-me um dinheirinho para comer uma sandes, porque fui atropelado e não tenho seguro nem dinheiro para comer..." Coração aperta (ainda), afinal posso dar, "Peço-lhe uma sandes aqui e pago-lhe, quer?" "Oh menina, eu só como sandes e bolos o dia todo, eu queria era mesmo um prato, a sério que não preciso de dinheiro para a droga... mas dê-me dinheiro..." Num Hospital, também olho à minha volta: Uma velhota chora e o coração volta a apertar: tenho a certeza que não é fácil aceitar o fim. (Eu própria ainda não aceitei o teu fim... que partiste, Isidora)
Dedico-me de corpo e alma como sempre me dediquei. Não me imagino em lugar nenhum sem ser assim. E depois, ver que não chega, mesmo assim. Que não chega. Chega.
Às tantas olho para mim e vejo o que há muito tempo não via. E ainda mais forte, como se fosse pela primeira vez. Vejo que... ... o coração palpita incessantemente, como se receasse parar no minuto seguinte. ... há um brilho nos meus olhos que se reflecte nas pessoas que me vêem. ... já não preciso de 8 horas de sono inteiras para revitalizar o corpo e a mente. ... os músculos faciais dão sinal de vida, porque já não estavam habituados a tanta felicidade.
Tanta cumplicidade não podia deixar de ser vivida e partilhada. Obrigada por existires.
O tempo é um cavalo. Suspiramos quando olhamos para trás e damos conta do que já passou e não volta, do que já vivemos tão depressa e tão intensamente e que queremos viver mais!... Quero muito que o tempo seja um cavalo veloz, para que possa parar quando chegares.
"Endesa vai voltar ao mercado de electricidade em Portugal"
Finalmente as luzinhas de Natal que uso durante o ano inteiro, a água aquecida a electricidade, as luzes de espelho de toucador, a Televisão e DVD, o rádio matinal e as luzes de candeeiro espalhadas pela casa, vão deixar de me sugar parte do ordenado!!!!
10h da manhã, com ressaca, mas tinha prometido um passeio no nosso famoso monumentolisboeta Aqueduto das Águas Livres:
O Aqueduto das Águas Livres é um complexo sistema de captação, adução e distribuição de água à cidade de Lisboa, em Portugal, e que tem como obra mais emblemática a grandiosa arcaria em cantaria que se ergue sobre o vale de Alcântara, um dos bilhetes postais de Lisboa. O Aqueduto foi construído durante o reinado de D. João V (1748), com origem na nascente das Águas Livres, em Belas, e foi sendo progressivamente reforçado e ampliado ao longo do século XIX. Resistiu incólume ao Terramoto de 1755.
Foi aqui que ouvi falar do Pancadas. Eu bem me parecia que já tinha lido nos livros de "Uma Aventura" que houve um homem no passado histórico que assassinava pessoas no aqueduto. Daí a saber que ficou conhecido como "Pancadas" havia uma distância superior ao comprimento do aqueduto (+ ou menos 58 kms).
Como a visita não foi guiada, googlei como milhares de navegadores da internet:
Resultado óbvio: Wiki, wiki wiki wiki Wiki, wiki wiki wiki Pédia
(não sei porquê mas lembrei-me do ritmo de Buraca Som Sistema, deve ter sido da noite de Jamaica de ontem)
Wegue, wegue wegue wegue Wegue, wegue wegue wegue
Wikipédia:
"O caminho público por cima do aqueduto, esteve fechado desde 1853, em parte devido aos crimes praticados por Diogo Alves (o Pancadas), um criminoso que lançava as suas vítimas do alto dos arcos depois de as roubar, simulando um suicídio, e que foi o último decapitado da História de Portugal.
Diogo Alves, espanhol nascido em Santa Gertrudes, bispado de Lugo. Veio viver para Lisboa ainda novo, tendo ficado conhecido como o assassino do Aqueduto das Águas Livres já que de 1836 a 1839 perpetrou nesse local vários crimes hediondos, muitos deles (pensa-se) instigado pela sua companheira Gertrudes Maria, de alcunha "a Parreirinha". Foi por fim apanhado pelas autoridades em 1840, na sequência do assassinato de da família de um médico cuja casa assaltara e, por isso, sentenciado à forca.
A história de Diogo Alves, cuja sentença de morte foi aplicada a 19 de Fevereiro em 1841, intrigou os cientistas da então Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Estes, após o enforcamento do homicida, na tentativa de compreender a origem da sua perfídia, deceparam e estudaram a cabeça de Diogo Alves. Esta encontra-se, ainda hoje, conservada num recipiente de vidro, onde uma solução de formol lhe tem perpetuado a imagem de homem com ar tranquilo - bem contrária ao que realmente foi. Os cientistas nunca terão conseguido explicar o que o levou a adquirir uma chave falsa do Aqueduto das Águas Livres, onde se escondia, para assaltar as pessoas que passavam, atirando-as de seguida do aqueduto, com 65m de altura. Na altura, chegou a pensar-se numa onda de suicídios inexplicáveis, e foram precisas muitas mortes - só numa família registaram-se quatro vítimas - para que se descobrisse que era tudo obra de um criminoso: Diogo Alves."
Homem com ar tranquilo?
Conclusão nº1: Por trás de um rosto tranquilo, estão sempre grandes pancadas.
Há dois meses que não vinha aqui. Estava com medo de encontrar o sofá vazio e de não conseguir enfrentá-lo.
(Incrível como um objecto pode causar-nos tanto medo.)
Mas vim. O Snoopy ladra estridantemente como se não me visse há anos. A minha avó abraça-me com aquele brilho nos olhos e aquela esperança de um dia me ver chegar acompanhada... diz-me sempre que me vê,
Olha que quem muito escolhe pouco acerta! Daqui a nada estás passada e ninguém te pega!
Agora que a Tia Isidora se foi embora, sabes que eu não estarei cá muito tempo. Gostava tanto de ver-te feliz...
E eu não consigo ficar chateada.
Muito menos pressionada.
Queria tanto dar-te essa felicidade avó, acredita, mas não é assim. Não se vira a esquina e se esbarra contra o amor da nossa vida, como nos filmes. Cada vez existe menos aquele amor que nos tira o fôlego, que parece que nos mata de dor, que parece que nos eleva ao céu...Já ninguém morre de amor, muito menos vive de amor! Já ninguém se esforça, muito menos luta!
E entretanto entro, com a respiração acelerada.
Vejo um perfil de cabelo branco e de repente penso,
Afinal era um sonho mau, estás aqui. O sofá não está vazio.
- Quem é esta menina, Sanita?
(diminutivo de São e não objecto de dejectos)
- É a minha neta, não te lembras?
- Olá Otília, como está?? Sou a neta, a Cláudia...
- Ahhhh já não te via há tanto tempo....
e irrompe num choro porque a memória já lhe falha.
O envelhecimento constrange-me tanto,
ainda ontem, a D. Otília, amiga da minha avó,
tratava tudo da casa, sempre arranjadinha, sempre arrumadinha, super metódica, dava de comer às netas, ao marido, aos cães, aos pintos, ia à horta, colhia laranjas, apanhava alfarrobas e amêndoas...
e agora a D. Otília, lá porque tem mais cabelos brancos,
já mal se lava, não faz comida, a casa parece um caixote de lixo, não fala às netas, não as reconhece sequer, não tem marido, não sabe o que fala, come e a seguir diz que tem fome porque se esquece que comeu, diz que não lhe deram comida.
Eu olho para a minha mãe e com os olhos pergunto,
"-Mãe... para onde vão as pessoas quando chega ao fim?"
Sentamo-nos à mesa, a resposta não é o mais importante agora.
Bradley:Do you think love is a trick for us to make babies, or do you think it's the only reason for everyhting, to do this crazy dream? Jenny:Which do you believe? Bradley:The second one.
Glen Hansard and Marketa Irglova for "Falling Slowly" from "Once"
Oscar 2008 : Best Achievement In Music Written For Motion Pictures (Original Song)
A velha sábia fumava o seu último cigarro do dia quando decidiu contar ao neto como tinha sido a sua juventude. O fumo percorria os sulcos vincados da pele como se procurasse estradas para o destino: a morte.
Fixou-se no olhar profundo e distante do neto e disse-lhe:
- Uma mulher tem de se sentir especial, Mateus. Se a tratas como todas as outras, ela nunca te levará a sério, nem te considerará um homem digno de respeito. Não queiras ser adorado por muitas. Estás a iludir-te. Até podes ficar com a sensação de realização e poder momentâneos. És jovem. É normal sentires-te o Rei do Mundo. Quando somos jovens pensamos que somos eternos. Mas um dia, quando olhares para o lado, vais perceber que não conseguiste construir nada suficientemente forte e sustentável. E nesse dia, chorarás como este rio que corre aos nossos pés e lembrar-te-ás das vezes que desperdiçaste porque estavas preocupado demais em espalhar o teu charme pelo Mundo.
Mateus irrompe num soluço barulhento e as lágrimas saem disparadas. Gritam por ajuda. Entre soluços inquietos e um olhar inundado, desabafa:
Tira a mão do queixo, não penses mais nisso O que lá vai já deu o que tinha a dar Quem ganhou, ganhou e usou-se disso Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar E enquanto alguns fazem figura Outros sucumbem à batota Chega aonde tu quiseres Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada para andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos O sistema é antigo e não poupa ninguém, não Somos todos escravos do que precisamos Reduz as necessidades se queres passar bem Que a dependência é uma besta Que dá cabo do desejo E a liberdade é uma maluca Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada para andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar
Enquanto houver estrada para andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada para andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar Enquanto houver ventos e mar
Começou um ano. Um novo ano e eu pergunto-me por que me tem faltado a inspiração... viagens e mais viagens, trabalho e mais trabalho (até pensar que terei casado sem saber, deveria estar a dormir) e depois... tu.
Isidora
Tu, que fazes parte da minha vida e contigo partilhei mimos que sempre fiz questão que tivesses.
Tu, que não tiveste a vida que toda a gente tem.
Tu, que sempre viveste no teu Mundo. O Salazar nunca percebeu que quem não aprendia bem na escola, não era porque não queria, era porque não podia. Encostaram-te ao fundo da sala. Como se fosses incapaz.
E depois ficavas feliz quando escrevia o teu nome e, com a língua de fora tal qual os míudos, tentavas copiar as letras e sorrias quando eu te dizia que estava bem.
Tu, que nunca tiveste filhos, nunca casaste, nunca conheceste o amor da tua vida (seríamos nós? quem precisa de mais desilusões?), que sempre criaste o teu Mundo, quando te zangavas com as nuvens, quando falavas à janela, sózinha, sobre a vida que nunca tiveste, o filho que nunca tiveste... quem via de fora não entendia. Mas para mim não era preciso. Bastava eu entender-te. Bastava quem estava ao pé de ti, gostar de ti, amar-te assim, como és, diferente. Linda. Fotogénica. A minha modelo preferida. Aquela cujo olhar se transformava quando eu apontava a objectiva.
Tu, que sempre foste gulosa, (azeitonas, amêndoas) adoravas, e nós, dávamos-te palmadinhas nas mãos como se fosse pecado tanta ingestão para quem já não aguenta tanto hidrato de carbono, tantos lípidos... sem imaginarmos que se assim gostavas. porque não?
Até ao fim, com prazer, afinal, não somos eternos.
Afinal, não somos eternos.
E eu pensava que sim.
Pelo menos neste mundo.
Porquê?
Por que é que temos de nos relacionar assim, aprofundadamente como se não fôssemos capazes de viver sem certas pessoas, e depois... tudo acaba?
Como se a finitude fosse o preço a pagar pela felicidade partilhada.
Chego ao Hospital e entro em estado de choque:
-Mãe. onde está? (ecoa na minha mente)
A minha mãe, ultrapassa-me e reconhece o que os meus olhos não queriam reconhecer.
Estás a desistir.
Este Mundo já não é o teu.
Não consigo controlar-me...
(eu, que sempre fora uma Madalena, agora percebia o verdadeiro estímulo do saco lacrimal).
Agarro-me a ti.
Faço-te festas.
(e os teus olhos grandes cravam-se nos meus)
E não consigo deixar de mostrar-te que sei que estás a querer desistir.
Ou talvez partir, voluntariamente, porque sabes que já não pertences aqui.
(e o saco lacrimal rebenta)
Dou-te de comer contrariamente ao que as enfermeiras dizem
(que não queres comer),
refilas,
como sempre mostraste nesse teu feitio tão vincado
(és diferente, mas não és parva, a ti, ninguém te engana).
Refilas, mas eu insisto.
Ml a ml, aceitas.
E comes tudo.
Domingo voltamos.
Estou mais forte, mas sabes?
Não consigo aceitar que queres partir.
Dou-te comida.
Engasgas-te como se fosses morrer de asfixia.
Asfixiada de pânico, desisto.
Não quero ser eu a precipitar.
A assistente social liga-me ontem e diz para preparar-me. A minha mãe hoje liga-me e diz para preparar-me.