segunda-feira, janeiro 28, 2008

Hercules & Love Affair

Quem se depara com a imagem do meu blog (muito fúnebre para alguns, um pouco depressiva apenas, para outros), já deve ter reparado que a voz e a "imagem" de Anthony & the Johnsons deleita-me.

Já que estou numa onda de músicas favoritas e apaixonantes, imaginem só como fiquei quando, neste fim-de-semana na minha segunda casa (só para quem percebe ;), ouvi a seguinte faixa musical da banda Hercules & Love Affair:





Aproveito para realçar que a descobri num programa da rádio magnífico e que aconselho a toda a gente ouvir: "O rapaz do Calendário" com o André Murraças da minha rádio preferida: Radar. Ao Sábado às 20h ou Domingo às 15h.

Em Repeat

Não me canso de ouvir esta música vezes e vezes sem conta, "até alguém perguntar: é sempre a mesma cantiga?". Qualquer dia vou à Radar gravar no programa em Repeat. Acho esta música obrigatória para quem quer sentir uma força interior transcendente... ´
Simplesmente linda.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Requiem for the Young People













Estremeci.
Como seria possível saber que alguém com pouco mais da minha idade (Heath Ledger), alguém que já viveu mais do que eu vivi mas que viveu tudo isso quase no mesmo tempo que eu vivi, ter desaparecido? Outro ainda mais novo do que eu (Brad Renfro), soube depois que também tinha desaparecido na semana anterior...
Overdose de drogas: o primeiro medicamentos (só?!?!...) o segundo drogas duras.
Que necessidade é esta das pessoas entupirem-se com substâncias na tentativa de salvarem e manterem o seu ego inabalável e indestrutível? Não sei o que é isso, felizmente. Mas compreendo o vício e a fraqueza que dele advém. Um caminho sem retorno para muitos.
Até um dia.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Não digam a toda a gente

Conduzir por Lisboa... à noite com a Roisin como banda sonora. Perceber que não pertenço a ninguém: e a felicidade que isso me traz! Não ter que atender, responder, comprometer... bah. Bicho do mato?

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Mulher Bonita

Precisa-se urgentemente de Mulher Bonita para fazer ressuscitar o cinema europeu, reivindica António-Pedro Vasconcelos, realizador do mais recente filme(?) Call Girl (Liga Rapariga/Rapariga que liga/Rapariga que tem um telemóvel(?)/Chama a Rapariga(?)/Rapariga é uma chama/Prostituta de Luxo/Acompanhante de Luxo/... - realmente em inglês o título fica bem melhor!). As palavras propriamente ditas foram:

"Há um horrível preconceito contra as mulheres bonitas. Foi isso que matou o cinema europeu. As actrizes bonitas deixaram de aparecer na tela e o cinema europeu desapareceu do mapa."

OK. Vamos por partes:

"Há um horrível preconceito contra as mulheres bonitas." Por acaso as Mulheres Bonitas estão a ser chacinadas ou julgadas em praça pública? Alguém conhece uma estória de uma mulher bonita que se tenha dado mal na vida??!? Mulher bonita? O que é isso? Universalmente aceite por um bando de desesperados anormais inatamente e hormonalmente nascidos com necessidade de satisfazerem o seu ego com vislumbres quotidianos de um peito avantajado, um rabinho firme e espetado e umas pernas que cheguem quase até ao pescoço? Ah! Mas que também tenha um palmo de cara? (senão... tapa-se). Sr. António, explique lá isso melhor outra vez, se não se importa.

"Foi isso que matou o cinema europeu." "(...) O cinema europeu desapareceu do mapa."
Foi isso que matou o quê?? O Cinema europeu despareceu de qual mapa? Desculpe, que cinemas é que anda a frequentar? Quais foram os últimos filmes que assistiu? Aconselho-lhe dois, entre muitos: Das Leben der Anderen e My life Without me. O seu mais recente filme irá concerteza salvar o cinema europeu. Então, qual a necessidade de tanta promoção? Para sincronizar com a época alargada de Saldos? Outdoors, Multibancos, Rádio, Televisão, Cinema, até um jantar de oferta!, publicidade e mais publicidade, afinal... não bastaria a Mulher Bonita Soraia para o salvar?

"As actrizes bonitas deixaram de aparecer na tela."
Ok, eu até compreendo que tendo a Soraia como protagonista o faça ser mais exigente com a beleza alheia... mas, vá lá. Quer que comece a nomear as actrizes bonitas por onde?


Bem. Beleza à parte, o que pretendo com este desabafo reactivo a este tipo de cinema que se diz representativo de Portugal e que faz render mlilhões, lucrar bilheteiras, aliciar patrocínios desafogosos (a TVi imaginem... quando vi aquele logo antes do início do filme, até fiquei com urticária) e até, preencher páginas e páginas de imprensa... O que pretendo é mesmo opinar o velho e verdadeiro clichet de que a Beleza é subjectiva. A Soraia é linda, tem um tronco espectacular, bom movimento de cintura, um olhar arrebatador, uma lascividade muito provocada - peço desculpa mas aquelas festas constantes no pescoço não me convencem e os lábios espetados a fumar muito menos!-, mas resulta! Os Homens ficam mesmo doidos. A questão não é essa. Até sabe representar um bocadinho vá, para aquilo que lhe é exigido, sim. Mas agora vem-me o realizador mais vendido de Portugal opinar frases desproporcionadas da realidade? Pensa que trouxe a salvação ao cinema português com aquele argumento oco e uma realização tão bem enquadrada que até deixa os microfones à vista?!? O que pretende na sua realização profissional? Popularidade/Banalidade ou Reconhecimento/Mérito?

Cada um procura o que quer.
Parabéns ao Ivo e ao Nicolau... os salvadores de alguma coisa neste filme.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Coisa fácil













"Quiting smoking is the easiest thing to do.
I know because I've done it thousands of times."
Mark Twain

terça-feira, janeiro 08, 2008

Estar de volta: Carpe diem.

Vá.
Não me venham com aqueles discursos chapa batida, de que "Ano Novo, Vida Nova", ainda mal começou o ano e já não suporto esses clichets de que a viragem de um ano num calendário que alguém se lembrou de inventar (Gregoriano - que nome... será que é porque, quando o ano virou, estava a ir ao grego??! ai o Papa Gregório, ai o Papa... tanto sangue de Deus, meu Deus) é suficiente para nos erguermos com a maior força inabalável (inderrubáveis mesmo) de quem suporta todo o excremento que nos acontece?!?
Ainda mal acabava o ano e fui surpreendida com o boom hormonal mensal e tão estupidamente pontual, suficientemente insuportável para me tornar insuportável... para os outros. Como é que alguém pode acabar bem o ano assim? Qual é a moral, acordar inchada, dores de rins, pernas, barriga, olheiras e um humor refinadamente sarcástico e implicante com tudo o que mexe e se atravessa à minha frente? Derrotei-me, pronto. Anulei tudo com gramas de álcool... (tão bom, cavet! que mais saiu para fora do que para dentro do meu copo- grande espalho sim sr!) não comi as famosas, intragáveis e engasgáveis passas (em Espanha comem-se uvas, vejam só, eles é que sabem o que é bom) e não formulei os tão famosos desejos universalmente não concretizados para ninguém...
Não é verdade? Não é verdade que anda toda a gente deprimida e em baixo porque, para além da
casa,
roupa XPTO e fashion,
comida no prato,
carro para se movimentarem e encalharem,
pele esticada para parecerem mais novos e horrivelmente perfeitos,
maquilhagem super fantástica para o deslumbre periférico,
viagem para o Brasil bimba e... etc..
Não é verdade que anda tudo com tudo, e sem o suficiente para ser feliz? Estou farta desta insatisfação geral. Só me apetecia transportar um pouco da África subsariana e espetá-la aqui, à frente dos olhos arrogantes desta gente snob e fútil, e claro, abrir-lhes os olhos à força, para que pudessem ver. O que nunca vêm à sua frente e as faz ser... infelizmente e frustradamente bonecos de plástico.Daquele plástico oco.

Conhecer muita gente...lindo, foi um espectáculo.
Mas do que se fala? Blá-blá-blá-blá e depois fumar, cheirar e tomar... FDX!
Pensei, daqui a nada rebentam com tanta porcaria que metem para dentro.
"Ah e tal.. és mesmo careta, chata, aborrecida...que seca de rapariga." pensam.
Quero lá saber,
(Tsun-Tsun-Tsun, techno agrressive e hard-core "pinchado" por um freak ávido e salivento de viver tudo como se fosse o último dia..)
E amanhã? As pessoas que estão cá para mim? Como é que elas ficariam?
Boa Sorte Carpe Diem Boys.

Balada da Neve

Cai a neve, levemente,
Como se chamasse por mim,
Acorda a minha alma, felizmente,
E eu penso, será para sempre?
Para sempre, não será certamente,
Será antes para sempre, mas até ao fim.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Botão Branco

Um botão branco numa camisa preta, perseguido por outros botões pretos, proclama por consideração como se fosse um néon de neve num pano de fundo escuro. Até parece que grita pelas suas casas mais abertas do que as dos outros botões. Tem medo, está preso e cheio de medo, por não conseguir inserir-se no meio dos outros botões ou por não conseguir libertar-se dos outros botões. E então GRITA

(pelas suas casas)

GRITA bem alto e reivindica a sua condição de diferente e exclusivo.

Afinal é único.

Mas vai daí, outro botão grita ainda mais alto e diz-lhe:
"Um dia eu hei-de amar uma pedra e essa pedra há-de amar-me a mim sem medo e cobardia de falhar. Sem ter vertigens na altura da queda livre. Castra-te. Castra-te. Pode ser que um dia fiques como uma pedra.

Mas uma pedra que eu não vou querer amar."

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Do lado certo

Quem é que sabe?
John Malkovich é que sabe.


terça-feira, dezembro 04, 2007

Dá-me para isto

"A mulher está sempre ao lado do homem, para o que der e vier. O homem, está sempre ao lado da mulher... que vier e der."

in "O Amor é..." Antena 1 - Júlio Machado Vaz

sexta-feira, novembro 23, 2007

The Get Go

Tenho gostado particularmente desta música que tem passado na radar:



São os The New Young Pony Club.

quinta-feira, novembro 22, 2007

She's lost control



Uma junção de grandes fotografias.
Representações brilhantes: Sam Riley e Samantha Morton (aquele grito a pedir ajuda fez explodir o que eu estava a conter).
Simples.
Silencioso o suficiente para fazer indagar o porquê do suicídio.
Porquê? Se eras tão bom?



The confusion in her eyes it says it all
She's lost control
And she's clinging the nearest passerby
She's lost control again
And she gave away the secrets of the past and said
I've lost control again
And the voice who told her when and where and why she said
I've lost control again

And she turned around and took me by the hand and said
I've lost control again
An how I've never felt just why I don't understand she said
I've lost control again
And she screamed out kicking on her side and said
I've lost control again
And she's upon the floor; I thought she died she said
I've lost control again

She's lost control again
She's lost control
She's lost control again
She's lost control

And I had to phone her friend to state my case and say
She's lost control again
And she showed up all the errors of the states and said
I've lost control again
And she expressed herself in many different ways until
She lost control again
I walked upon the edge of no escape and laughed
I've lost control again

She's lost control again
She's lost control
She's lost control again
She's lost control

quarta-feira, novembro 21, 2007

Crença

Penso mais que....

.... quando encontramos a pessoa certa, qualquer altura é certa.

segunda-feira, novembro 19, 2007

I love Kar Wai



O amor é apenas uma questão de oportunidade.

De nada vale encontrar a pessoa certa antes ou depois da altura certa.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Sente alguma coisa? Tome uma aspirina.

Perplexa. Foi como ficou a minha integridade ética e profissional quando foi "assaltada" pela campanha de marketing do "remédio" secular e mundialmente conhecido: o ácido actelisalicílico, mais genericamente conhecido como Aspirina.

Não consegui deixar de sentir a ebulição dos meus líquidos gastrointestinais quando processei a informação que é transmitida por aquele spot publicitário. Banalização da toma de medicamentos? Bah! Corri do sofá e fui vomitar. Sou a favor da toma, claro. Apesar de achar que sofrer faz parte, chega-nos o sofrimento da alma. Não físico. Se esse se consegue anular com químicos (sim e a Natureza também tem químicos, não me venham com o que é natural é bom! E a cocaína, não é natural? - mas claro que devem achar que é bom, dizem - e a cicuta? Nem posso ouvir "O que é natural é bom.")

A dor é um sinal. De que algo no nosso organismo não está bem. Devemos entendê-lo como um sinal de alerta. Mas existem dores convencionais e fisiológicas que já são esperadas e essas podemos anular para não sofrermos. Falo das dores menstruais (mas não tratadas com aspirina porque aumenta a hemorragia), das dores de cabeça (quando não são recorrentes)... mas agora, DORES MUSCULARES PROVOCADAS PELO EXERCÍCIO FÍSICO????? O que é isto????? Prefiro dizer não exagerem e façam o exercício gradualmente para não sentirem tanta dor. Qual é o objectivo? Ganhar uma úlcera? Palhaçada de banalização e desespero histérico para facturarem a subida de vendas, aproveitando a liberalização da propriedade das farmácias e da venda de medicamentos não sujeitos a receita médica, fora delas. Só faltava chegarem agora e dizerem: "Sente alguma coisa? Então tome uma aspirina! Não é só para a dor de cabeça, também dá para qualquer sensação...!"

Nota de rodapé: sente calor, tome, sente dor, tome, sente aflição, tome, sente medo, tome, sente? tome! (Mas não se admire se apanhar uma úlcera.)

quarta-feira, outubro 31, 2007

GATAGIRL

Pedras no meu sapato?
Apanho-as todas e atiro-as com grande precisão e pontaria... assim, mesmo em cheio. Para fazer galo. Depois viro costas e sigo em frente.

AHAHAAHAHAHAHAHAHAHAH

É tão bom sonhar e puxar pelo nosso lado mais sombrio, sermos fortes e vingativos através do nosso alter-ego e realizarmos um filme bem à Tarantino.

Assim, GIRL POWER ou GATAGIRL POWER ;).

sexta-feira, outubro 26, 2007

Da Rússia com muito rancor...

Putin que o par@£§!
Nem o Benjamin Biolay me salvou desta perda de anos.

terça-feira, outubro 23, 2007

Benjamin



Benjamin Biolay - "Dans La Merco Benz"
Álbum Trash YéYé


Acordar e perceber que tem de ser mais um dia. Um dia em que lutas para que algo de diferente aconteça e não te deixe mergulhar na apatia monótona e sufocante. Queres respirar e abres a janela do carro... pufff! O cigarro do condutor vizinho misturado com o monóxido de carbono dos condutores vizinhos misturado com os perfumes dos condutores vizinhos. Que horror. Estás, Cláudia, estás encravada, sim, reprimida. Não consegues respirar, bem... profundamente. Acordas a pensar em como era bom ter o mar ali, logo ali, ao acordar. Poder pôr o pé na areia logo de manhã, antes de te dedicares a um dos teus sentidos da vida. Penso. "O que é que eu estou aqui a fazer?", meto a mudança e penso, "Mas por que é que sou mais uma num milhão que tenta entrar numa cidade sozinha num carro de tantos lugares?", e volto a pensar "Que direito tenho eu a poluir o ambiente, a julgar-me dona suficiente do Mundo e prepotente o suficiente para alugar um espaço fútil e desnecessário, para no fundo culminar tudo num tamponamento congestivo?", e ainda volto a pensar que poderia fazer, uma maluquice e idiotice bem benigna "Pst! Tu aí, desse carro, encosta o teu carro p'ra aí. Melhor! Vende-o! Passas a atravessar comigo todos os dias este elo tão ténue em que toda a gente se afunila e atropela... anda, e assim libertamos espaço e não contaminamos o ar que respiramos. Matamo-nos menos. Anda! Vem. Olha chama a outra pessoa do outro carro e diz-lhe para fazer o mesmo. Vem, combinamos, conhecemo-nos melhor, fazemos mais amigos. Para que nos fechamos cada vez mais? Vem, entra. Fica. Se quiseres...."

Piiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!! "Acorda pá! estás a dormir ainda??!!??? Anda com essa merd@!!! Carroça! Vê-se mesmo que és mulher!" Sobressalto-me... estava a sonhar claro. Embalada pelo Benjamin Biolay, tudo é mais possível. Penso "Palhaço do caraças, se pudesse, espetava-te com a carroça e logo verias como é que é ser mulher."

Respiro fundo... Fecho os olhos pouco tempo para não parar de novo. Meto mais uma mudança. Não escolho o caminho porque ele já está escolhido.

Talvez um dia faça inversão de marcha.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Frima-te

"Este final de Setembro, o mês dos meus anos, tem-me custado. Perguntas sobre perguntas acerca de mim mesmo e a angústia do sentido da vida e da forma como me relaciono com ela. O que posso fazer, o que devo fazer? (...) Os meus defeitos aparecem-me de forma muito clara e dolorosa. Não só os meus defeitos: as minhas insuficiências, os meus erros. Sempre imaginei que um livro resgatava tudo: não resgata. E no entanto continuo a escrever, como se esse acto contivesse em si a minha salvação. (...)

Vou-me olhando de forma cada vez mais distanciada e sem indulgência. A impressão, melhor: a certeza de haver falhado. O quê? Não estou deprimido, não me sobra tempo para depressões, sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê. O que poderia ter feito? O que deveria ter feito? Esta permanente tortura que a gente disfarça. A ideia recorrente que aquilo, quer dizer que a única coisa que a vida nos dá é um certo conhecimento dela que chega tarde demais, sempre tarde demais. Grandes cães que se entredevoram dentro de mim. (...)

Apetece-me desaparecer atrás das palavras, ser de facto o ninguém que sou: um nome apenas, numa capa. E deixar o resto para mim, dado que não tem nenhuma importância colectiva.

Agora é manhã e está sol. Nenhum ruído à minha volta. Se eu pudesse passar a vida a limpo, como diz o Drummond, corrigia quase tudo. Que pena não podermos emendar os dias, o que fizemos, o que somos. Um demónio qualquer distorceu-me tudo ou fui eu quem distorceu tudo?

Agora é manhã e está sol. Se eu fosse DEUS parava o sol sobre Lisboa, escreveu Fernando Assis Pacheco.
"- Está solzinho, que horas são?" Esteves nossos diminutivos de que tanto gosto.
Oxalá o sol continue parado sobre Lisboa, parado sobre mim e eu embalsamado nele. Vestido dele. Afogado nele. Se eu fosse Deus era uma carga de trabalhos, não lhe invejo a sorte.

Nada mudou e tudo mudou: como eu gostava de ser pragmático, em lugar de viver numa nuvem cujos limites, aliás, distingo mal. Ou então a nuvem sou eu. Gasoso. De que raio de substância sou feito? Estou a deixar a caneta correr ao gosto dela, sem policiar nada. Que faça o que lhe apeteça. O Sol desapareceu, voltou. Olho em volta, regresso ao papel. Está solzinho, que horas são? O Júlio Pomar
- Aguenta-te
e há alturas em que é difícil aguentar, Júlio. Que raio de destino, que sina. A voz dele
- Como estás tu?
e a lata de me perguntar isto a mim que nunca sei como estou, nunca soube como estava.
- Como estás tu?
é a pergunta mais difícil de responder do Mundo."

António Lobo Antunes, in crónica da Visão edição nº763 - 18 de Outubro de 2007 Se eu fosse Deus parava o Sol sobre Lisboa